Amizades eternas, em El Nido

Dez dias. O tempo que acabámos por ficar alojados num quarto com vista privilegiada para a linda baía de El Nido, uma povoação situada no topo norte na ilha Palawan. Motivos de tão prolongada estadia? Vários dias de chuva intensa e o maravilhoso arquipélago Bacuit que, de tão bonito e agradável, parece cenário de filme turístico promocional. Ele há sítios dos diabos!

Os planos em El Nido passavam por fazer muitos passeios entre as ilhotas de Bacuit, mas a baixa pressão que nos perseguiu desde o sul da ilha reteve-nos no vilarejo por uns dias. Mas, malgrado as condições climatéricas adversas, El Nido fez por merecer uma estadia prolongada, principalmente porque, ao contrário de muitos locais procurados por turistas que rapidamente se transfiguram em algo sensaborão, sem sal e alma, El Nido mantêm, no essencial, apesar da pressão, a sua identidade. Tem no turismo a sua principal fonte de rendimento, é certo, mas é também suficientemente grande para albergar uma larga comunidade escolar e gente cuja vida não depende dos dólares estrangeiros. Há mercados, mercearias, restaurantes locais baratíssimos, campos desportivos, uma igreja. Basta recuar uma ou duas ruas paralelas à Hama, a artéria turística de El Nido que comprime pousadas, bares e restaurantes contra o areal, para se encontrar um povoado com vida e pulsar próprios, independente dos fluxos de mochilas, havaianas e tatuagens. Prova disso são as imensas crianças que andam, a todo o momento, nas ruas – coisa sempre alegre numa urbe.

 

Crianças a caminho da escola de El Nido
Crianças a caminho da escola de El Nido

Certo dia, caminhando pelas ruas de El Nino, perguntámos à Pikitim se não queria ir à escola estar com esses miúdos. Disse que sim. Aproximamo-nos da escola, havia meninos e meninas no exterior, junto às portas das salas de aula, em uniformes com t-shirt branca e calção ou saia azul escuro. Uns brincavam, mas outros esperavam numa fila ao fundo das arcadas exteriores onde caminhávamos. Estava a ser distribuída uma refeição, uma espécie de caldo de arroz – não era o pequeno-almoço, porque essa as crianças tomam com os pais, entre as 6h30 e as 7h00, regra geral arroz com frango ou tocino – um pedaço de porco. A Pikitim estava muda e tímida.

Quando paramos à entrada da primeira sala, fomos recebidos por uma simpatiquíssima “madame Harin”, professora da segunda classe que imediatamente se voluntariou para nos fazer uma visita guiada a toda a escola. As portas e janelas estavam abertas (tinha acabado de chover, mas o calor era muito), pelo que pudemos observar a notória sobrelotação das salas de aula. Sem rodeios, Madame Harin explicou que as turmas tinham “no mínimo” 50 crianças, porque “há falta de salas e de professores nas Filipinas”. Para nossa surpresa, nos quadros de argila o giz branco desenhava palavras para nós inteligíveis: “Os meninos começam desde cedo a aprender inglês”, explicou.

 

Miúdos da idade da Pikitim no jardim-escola, El Nido
Miúdos da idade da Pikitim no jardim-escola, El Nido

Madame Harin mostrou-nos a biblioteca, a modesta sala de computadores, a sala dos professores e, finalmente, levou-nos até um edifício localizado um pouco adiante. Era a sala dos meninos “com quase cinco anos”, como a Pikitim. A nossa anfitriã perguntou-lhe se ela queria ficar com eles “a brincar e a aprender” um bocadinho. Os educadores corroboraram o convite, e instaram-nos a entrar (afinal, não é todos os dias que uma criança estrangeira visita os meninos da sala). Eram cerca de uma dúzia de crianças, estavam a fazer puzzles de madeira e tinham alguns livros espalhados pelas mesas. No quadro preto estavam já escritas todas as letras do alfabeto, em maiúsculas e minúsculas. A Pikitim continuava muda e tímida.

Apesar dos reiterados convites das professoras, da tentativa de algumas crianças de interagir com ela e mesmo da nossa insistência para que se sentasse a brincar com os meninos, o mais que conseguimos foi assustá-la. Só abanava com a cabeça a dizer que não queria brincar e que queria ir embora dali. Desistimos, completamente frustrados pela oportunidade perdida. Porque todos os dias a Pikitim fala da escola e dos amigos que deixou e entretém-se a antever como vai ser “quando regressar a Portugal”. Queríamos proporcionar-lhe contacto com miúdos da sua idade, mesmo que não tendo uma língua comum. Mas ela queria ver, não queria “estar”. Ou, pelo menos, não queria ser empurrada para isso!

 

Amanhecer na praia de El Nido
Amanhecer na praia de El Nido

Não foi a primeira vez que os planos de socialização que vamos fazendo caíram por terra, mas a visita à escola de El Nido serviu-nos de lição: pressionar não é a melhor estratégia. E assim acabámos por perceber que não vale a pena “impor-lhe” contactos, nem amizades. Ela decide a hora de os fazer. E consegue surpreender-nos.

Por exemplo, a amizade que travou com Astrid, uma holandesa que vive em Espanha há mais de 40 anos e que conhecêramos no autocarro público que liga Puerto Princesa a Sabang. Nessa viagem, mal falou com eles, mas bastou uma refeição em conjunto para a Pikitim “adoptar” por completo a cinquentona Astrid. Separámo-nos por uns dias, mas ficou radiante quando, após um telefonema, soube que Astrid e o companheiro Manuel viriam ao nosso encontro em El Nido. E a verdade é que, no tempo em que estivemos juntos em El Nido, com passeios por ilhas de vegetação luxuriante, muito snorkelling em águas cristalinas e jantares a cinco, nunca mais largou Astrid. Após navegar entre as ilhas de Bacuit com o simpático casal, a Pikitim disse ter pedido um desejo: “O desejo que eu pedi no barco foi que fossemos amigas para sempre…”. Quando chegou a hora das despedidas, com uma pulseira oferecida no pulso, avisou: “Mamã, não vou tirar esta pulseira do meu pulso nunca. E, todas as noites vou olhar para o céu e procurar a estrelinha mais brilhante, porque a Astrid disse que essa estrela era ela a pensar em mim”.

 

Uma miúda regressa a casa pelo areal de El Nido
Uma miúda regressa a casa pelo areal de El Nido

Foi precisamente em El Nido que a Pikitim se começou a soltar. Fomos fazer um passeio de fim de tarde sem rumo definido, e acabámos no meio de uma aldeola muito simples, com algumas dezenas de casas de bambu povoadas por gente sorridente e miúdos aos pulos. E desta vez, não instamos a Pikitim a dizer “olá” às crianças, nem insistimos para que respondesse às muitas meninas e meninos que lhe dirigiam palavra. Mudamos de estratégia e começamos a ser nós a fazê-lo: “Hello! What’s your name? My name is Filipe”. E, invariavelmente, acabavam por perguntar o nome e a idade da Pikitim, e também de que país éramos. Às tantas, a Pikitim começou a responder, a querer falar e encontrar mais crianças, a “fazer amigos”. Quase no fim do passeio, concluiu: “Pai, hoje conhecemos muitos meninos. Da próxima vez quem mete conversa sou eu, ok?”.

Comentários

  1. Astrid Donker says

    Hola Pikitim!!!!!
    No se si hablar en español o en ingles para que me entiendas mejor.Te hablare en español porque es un idioma que nos hace mas hermanos.
    Me alegra que habernos conocido haya servido para que pierdas el miedo a comunicarte con las personas.
    Para mi ha sido una suerte haberte conocido en este viaje,eres y seras siempre una persona muy especial en mi corazon.En estos momentos seguimos en Filipinas,en la isla de Malapascua,un lugar maravilloso donde se ven las estrellas todas las noches y siempre que veo esa que mas brilla me recuerda nuestra amistad y los buenos momentos que pasamos juntos.
    Espero que vuestra estancia en Indonesia sea gratificante y que esteis pasando buenos momentos esperando el reencuentro con tu Papa.
    Muchos,muchos besos de tu amiga Astrid y de Manolo para ti y todos los tuyos.Hasta pronto,y recuerda siempre nuestra amistad.Te quiero.

  2. Rui says

    Que texto tão bonito! E a resposta da Astrid é a cereja no cimo. Emocionei-me. Há uma lágrima de inveja aqui… mas cheia da felicidade. Parabéns e boa viagem.. com muitos amigos!

  3. says

    olá felipe!!
    parabéns pela “ousadia” de viajar com uma menininha por esse mundaréu. demonstras tu e tua mulher muito despojamento pq os petizes são muito exigentes em se tratando de atenção!
    um prazer saber, através dos saborosos relatos escritos tanto por ti qto por tua mulher, sobre os lindos recantos das filipinas. até então era, confesso, absolutamente ignorante sobre esse país!
    continuem sempre assim, revelando lugares não tão midiáticos do nosso belo planeta!!
    boa viagem pros 3!!
    abração, beatriz

  4. Maria Candeias says

    Foi com uma certa emoção acompanhada de uma saudável inveja que li a crónica sobre a vossa estadia em El Nido.Que saudades de voltar a essas paragens não só para deambular pelas espetaculares ilhas do arquipelago Bacuit mas também voltar a apreciar a beleza indescritivel do lago Kayangan, relaxar na mais bela praiinha do mundo Banol beach, ambos na ilha Coron a norte de Palawan, fazer snorkeling particularmente sobre os jardins de coral que cobrem navios afundados durante a 2ª guerra mundial nas imediações da ilha Busuanga, nadar com tubarões baleia e passar o inicio da noite a ver o espetáculo de luz dado por milhões de pirilampos em Donsol.
    Absolutamente marcante a viagem que fiz às Filipinas, apenas com um senão, que infelizmente não é exclusivo dessa zona, as medusas cubo (box gellyfish) extremamente perigosas e por vezes presentes na zona de banho das praias.
    Continuarei a seguir-vos e a aproveitar as vossas cronicas, aqui e no site Alma de viajante, para planear novas viagens. Boa viagem.

    • says

      As Filipinas são, de facto, um país fantástico. Também gostamos muito, muito! Cheio de lugares incríveis, como dizia a Pikitim.
      Um abraço, e continue a acompanhar-nos!

  5. Graça Ribeiro says

    Estive algum tempo ‘sem tempo’ para vir espreitar mas gostei muito desta crónica. Obrigada pelo vosso projecto, pelo trabalho e pela partilha. Quando a Pikitim começar a interagir, acho que ninguém a vai ‘segurar’.

    Continuação de boa viagem!

  6. says

    Finalmente conseguimos ler o vosso blog com calma!

    Vimos um post da Joana (de Peniche, que vos encontrou na Tailândia) e perdemos o rasto até hoje.

    Boas viagens para a família! Divirtam-se e vão dando notícias!!

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