FUGAS #5: A origem da roupa das Polly Pocket
Foram dias a dormir numa casa sobre estacas, com o marulhar da enchente a invadir os ouvidos e a brisa fresca a alisar os cabelos deitados na rede. Isso numa ilha turística de um lado, tranquila doutro, e onde as seringueiras dominam a paisagem de permeio. E, para a Pikitim, isso não é coisa pouca: a partir de agora, é dos copinhos pendurados nas árvores de Koh Lanta que sai a borracha para fazer as roupas das suas Polly Pocket.
Estava previsto que Lanta Old Town fosse um poiso mais prolongado no primeiro mês de viagem. Um breve intervalo onde fizesse sentido despejar completamente as mochilas e arrumar todas as coisas em armários e prateleiras. Faríamos uma curta pausa no nomadismo a que voluntariamente nos dedicamos para conhecer melhor um povo, uma cultura, um estilo de vida, mas também (ou seria principalmente?) para relaxar e matar saudades do nosso quotidiano, tendo oportunidade, por exemplo, de estar atrás de um fogão e mimar o palato com sabores conhecidos. E assim foi.
Alugámos uma casa de madeira com mais de 70 anos, importante entreposto comercial em tempos idos e onde os chineses se estabeleceram para vender (legalmente) ópio aos navegadores mercantes e habitantes locais. Imaginámo-nos relaxados na varanda, deitados numa cama de rede a contemplar o mar, perscrutando as águas à procura de peixinhos mesmo por baixo dos nossos pés. Era a tal “casinha sobre a água” que a Pikitim tanto ansiava, mesmo em cima do oceano, de madeira e construída sobre estacas. E a realidade não desiludiu. A casa de madeira acusava a idade, é inegável. As largas tábuas no chão tinham muitas falhas entre si (o que, verdade seja dita, até dava jeito para varrer a casa directamente para o mar!) e o telhado assentava toscamente sobre as paredes, com uma distância suficientemente grande para permitir a entrada de um morcego curioso, mesmo tendo todas as portas e janelas bem fechadas. Mas a velhice adicionava-lhe beleza, muito por culpa da arquitectura e estilo de construção e, sobretudo, da localização sobre a água que fizeram com que, sem esforço, nos sentíssemos verdadeiramente aconchegados. Em casa, portanto. Mas sobre a água.

Chegada de barco a Ban Saladan, maior aglomerado urbano de Koh Lanta
A Pikitim não poderia pedir mais. Impressionou-se especialmente ao sentir a voracidade do oceano debaixo da palafita. O ruidoso marulhar na enchente da maré. Duas vezes por dia, ao sabor da terra e da lua. Tudo muito rápido. Ao pequeno-almoço, avistava-se o mar lá ao fundo e os barcos dos pescadores repousavam em lama; de repente, entre uma dentada na torrada e um trago de leite, a lama já era água e a sua subida ouvia-se de tal maneira que, por vezes, se confundia com chuva. Quando um dia a Pikitim estudar os fenómenos das marés nos bancos da escola, não deixará com certeza de se lembrar da experiência vivida na sua “casinha sobre a água”.
Após alguns dias mais rotineiros que o habitual (e como souberem bem, esses dias!), com idas ao supermercado e aos correios, cumprimentos aos vizinhos e brincadeiras no parque infantil da aldeia ao final da tarde, alugámos uma mota para dar a volta à ilha, espreitar as famosas praias de Koh Lanta e a diversidade dos seus habitantes – dos tailandeses muçulmanos aos chineses budistas, e ainda os chamados “ciganos do mar”, animistas. Para a Pikitim, a emoção do passeio de mota residiu mais na aventura de ir “na mota à frente do pai” a fingir que conduzia enquanto se empenhava em segurar um capacete demasiado largo para a sua cabeça de menina, do que nas praias como a de Klong Dao ou nas aldeias da ilha, como Ban Sun-Ga-U.

Rua principal de Lanta Old Town
Foi onde rumámos primeiro, no extremo sul da ilha, onde pouco mais existe que aglomerados de pescadores e uma aldeia com pequenas casas e barracas de madeira onde vive um clã Chow Leh – os tais “ciganos do mar”, povo nómada originário da Malásia que outrora vivia navegando livremente por todo o mar Andaman e estão, agora confinados a aldeias como Ban Sun-Ga-U.
Sabíamos de antemão que muitos se mantêm fieis às suas tradições de pesca e compreensivelmente têm alguma relutância a contactos com estrangeiros. A nossa passagem por Ban Sun-Ga-U foi, por isso mesmo, rápida. A aldeia estava deserta de homens (estariam na pesca?) e, à porta de uma cabana com ar de mercearia, quatro mulheres e uma bebé aproveitavam a frescura de uma sombra para cavaquear. Surpreendentemente, as mulheres agradaram-se com a Pikitim e tentaram que ela interagisse com a bebé, como se pretendessem que ela brincasse com uma “boneca” de verdade. A Pikitim só sorria, e reparou que a bebé tinha muitas pulseiras no tornozelo. Quando chegou a casa, uma das primeiras coisas que fez (e repetiu nos dias seguintes) foi pôr os elásticos do cabelo no seu tornozelo, numa espécie de aculturação e homenagem à tradição que havia visto.

Recolha do látex para produção de borracha natural
De regresso às subidas e descidas da estrada (“Ena, esta estrada parece mesmo a pista de carros do Diogo, mãe… sabes, aquela do faísca McQueen?”, disse a Pikitim), fomos atravessando largas extensões de “árvores da borracha”. É um das actividades económicas com alguma importância na região. A primeira vez que a Pikitim reparou nos copinhos espetados nos troncos das seringueiras tinha sido em Koh Jum e, na altura, o seu interesse na árvore levou o motorista do tuk-tuk a parar para que a Pikitim lhe arrancasse um pequeno pedaço de látex: “Parece elástico, mãe!”, notou, espantada.
Aproveitamos a deixa para lhe explicar que era com pedacinhos como aquele que se obtém a borracha natural com que se fazem muitas coisas que usamos em casa, incluindo brinquedos. “Como as minhas bonecas?”, perguntou. Sim, Pikitim, como algumas das tuas bonecas.

Placas de caoutchouc a secar à porta de nossa casa em Koh Lanta
A partir daí, a Pikitim passou a reparar em todas as “árvores com copinhos”. E, atravessando uma plantação na ilha de Lanta, notou também numa espécie de “máquina de costura”, um artefacto onde se pressiona o látex recolhido nos copinhos com um ácido coagulante até aparecerem placas finas desta goma elástica a que se chama caoutchouc, que depois são postas a secar.
Tínhamos dessas placas extraídas de forma natural à porta de casa, em Lanta Old Town, exalando constantemente um odor adocicado e enjoativo. Um dia, ao passar por elas, a Pikitim voltou ao assunto: “Se calhar, mãe, estas coisas vão para uma fábrica ser transformadas em roupas para as minhas Polly Pocket”.



2 Comments
Joana
e que mal cheira essa borracha…bem pior que durian…hehehe!!
27 Feb 2012 12:02 pm
Sandra
“…o que, verdade seja dita, até dava jeito para varrer a casa directamente para o mar!…” Acho que vou mudar de casa
)))
27 Feb 2012 12:02 pm
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