O emprego mais “duro” do mundo?

Nem de propósito. Andei eu a falar de o pior sitio do mundo para ser um profissional qualquer – e regressei a Manila, a capital das Filipinas, apontada pela BBC como o pior lugar do mundo para se ser motorista de autocarro –  e logo me apareceu este criativo anúncio, sobre o emprego mais duro do mundo. O de ser mãe.

Espero que o vosso inglês esteja afinado. Para perceber as coisas incríveis que o “empregador” está a pedir aos candidatos ao emprego: disponibilidade total (365 dias por ano, 24 horas por dia), boa capacidade de negociação, boa organização no meio do caos, mobilidade, boas relações interpessoais, conhecimentos de medicina, de finanças, etc, etc, etc. São todas verdadeiras. É tudo competências e capacidades que um progenitor tem de pôr à prova, todos os dias. Mas o anúncio é uma caricatura. E é uma farsa. Sobretudo quando se põe a falar de salários – e diz que não há remuneração nenhuma. “Desumano”, “cruel”, “ilegal”, reclamavam os candidatos. Mas isso foi antes de lhes explicarem que há milhões e milhões e milhões de pessoas a executar essa tarefa hoje em dia. As maes de todo om mundo. É aqui que está a maior “farsa”. Como podem dizer que não há remuneração?

Ser mãe é o trabalho mais gratificante de todos. Não há salário que o pague.

 

 

Manila, o pior sítio do mundo para… ser motorista de autocarro

Há quem diga que uma das melhores coisas que se pode retirar de uma viagem é a certeza de que o nosso lugar é o sítio onde temos raízes. Que um dos momentos de maior felicidade é, depois de um voo surpreendente, magnífico e extenuante, o momento de regressar ao ninho. Porque nos ajuda a valorizar aquilo que temos, a relativizar aquilo que pensávamos que nos fazia falta. Não subscrevo esta afirmação na íntegra, até porque não sobreponho a satisfação do regresso aos momentos intensos do voo (para continuar a usar a imagem do voo e do ninho). Mas isso se calhar sou eu, que tenho mais a tentação de valorizar a adrenalina do que os momentos de relax. Porém, fiquei a pensar muito nisso depois de ter visto, aqui há dias um interessante documentário do canal BBC Two (transmitido pela Sic Noticias).

Era um episódio da série “The thoughest place to be…” - algo como “O pior sítio do do mundo para…”. Neste episódio, um profissional estabelecido no Reino Unido aceita o desafio de ir exercer a sua profissão num outro lugar do globo, onde as condições são bem mais desafiantes. O episódio que eu vi falava da profissão de motorista de autocarro, e retratava a experiência de um motorista de Londres a experimentar conduzir um jeepney em Manila, a capital das Filipinas.

o pior sitio do mundo

Em cima, Josh West, britânico; em baixo, Rogélio Castro, filipino.

Josh West conduz um dos autocarros vermelhos de dois andares, famosos em todo o mundo. Todos os dias faz várias vezes um percurso entre vários pontos da city de Londres. No início do episódio vemos a festa surpresa que a família lhe organiza, em jeito de até já e boa sorte para a aventura do outro lado do mundo. As imagens seguintes mostram Josh a entrar em casa de Rogélio, uma casa onde vivem oito pessoas em dez metros quadrados (duplicados por dois andares). West começou a rir-se quando viu o jeepney. “You call this a bus?”. Depois, começou a ganhar respeito pelo trabalho árduo que Rogélio enfrentava todos os dias.

Trabalho árduo que inclui enfrentar o trânsito (e só quem já passou por Manila consegue perceber a dimensão deste caos, pior ainda do que em qualquer grande metrópole asiática), trabalho de cobrar bilhetes, conduzir sem direcção assistida, sentar-se num atravancado banco de madeira, abastecer o veículo no menor tempo possível, de preferencia sem se afastar demasiado da rota. West sai das Filipinas um homem novo. Ouviu Rogelio espantar-se com a descrição dos autocarros no Reino Unido e limitou-se a dizer: gostava de um dia ir trabalhar para o seu país. Não é difícil perceber porquê.

Este episódio tocou-me porque me levou de novo até Manila, à caótica capital das Filipinas, e que foi um dos sítios onde vimos mais miséria concentrada. E onde há gente, como Rogélio, com a mesma dignidade profissional que Josh, mas com bastante menos condições.  Viajar ajuda-nos, afinal, a isto: torna-nos conscientes de todas as diferenças que nos separam, e da sorte que alguns temos por nascer em determinado sítio.

Para uma criança de quatro anos andar num jeepney é tão emocionante como andar num autocarro de dois andares. Aliás, talvez andar num jeepney tenha sido ainda mais emocionante, dado o número de vezes que ela pediu para entrar e sair deles – no pequeno vídeo onde registamos a nossa passagem por Manila, dá para ter um pequeno cheirinho. Uma coisa é certa. A Pikitim experimentou as diferenças. E vai saber valorizá-las.

Jeepney Manila

A Pikitim, sorridente, no interior de um jeepney, em Manila

desenho jeepney

Um jeepney desenhado pela Pikitim

 

Diário de Viagem #18: O canguru na Austrália

A culpa é toda do Luís Simões, e do fantástico projeto de desenhar o mundo que ele anda a executar há dois anos (e ainda faltam mais três!). Se ainda não conhecem o World Sketching Tour não sabem o que estão a perder. Mesmo. E digo que a culpa é dele, porque ele alinhou numa surpresa que preparamos para o 7º aniversário da Pikitim, e mandou desde lá do outro lado do mundo em que ele agora está – mais concretamente em Hong Kong, na China –  um postal de aniversário à Pikitim. Ela reconheceu-se logo na “cama de cima” da “casinha com rodas”. E eu já adivinhava este desfecho. Ela iria querer saber mais e mais sobre desenhos, sobre a viagem do Luís. E iria, naturalmente, querer regressar aos seus. Continue Reading…

Mapas de comer e chorar por mais

Há gente muito talentosa no mundo. E criativa também. O artista neozelandês Henry Hargreaves e a designer novaiorquina Caitlin Levin têm ambas as características em abundância. E tiveram a ousadia de pegar em dois dos meus elementos preferidos: mapas e geografia. Estou a falar de comida do mundo, ora pois.

Inspirados pela sua paixão por viajar, usaram como referência as comidas icónicas de cada país e preencheram o respectivo mapa. Quem é que vai a França e não pensa em queijos? Ou pensa na Índia e não sente as especiarias? E os tomates, ah os tomates de uma bela pizza napolitana (sim, estou a pensar em Itália!)? Ou os noodles da china?

O resultado está aqui em baixo. Em imagens de inspiração vintage. Mapas de comer e chorar por mais. Continue Reading…

Um roteiro pelo Norte Património da Humanidade

Ando sempre a falar de viagens por esse mundo fora – a falar delas, e a sonhar com elas – mas quem lê este “Diário” sabe que nunca desprezamos uma boa viagem cá dentro. Por isso, e porque moramos no Norte de Portugal, um cantinho privilegiado em termos de argumentos naturais e humanos, arquitectónicos e paisagísticos, decidi-me a compilar publicamente as sugestões que tantas vezes me pedem em privado. Aqui fica uma proposta de roteiro por quatro lugares que são obrigatórios, de tão especiais: e não sou só eu que o digo, é mesmo a insuspeita Unesco, que os declarou Património da HumanidadeContinue Reading…

Viajar sem sair de casa

Uma das melhores coisas que conseguimos quando andamos a viajar é a oportunidade de conhecer novas culturas e tradições. E quanto mais longínquas e mais exóticas forem, mais interessantes parecem ser, pela diversidade que nos trazem, pelas novidades de que se revestem.

Se daí desse lado estiver muita gente parecida com a malta aqui de casa, neste momento estarão a pensar na viagem que gostaria de fazer a seguir. É assim uma espécie de vírus latente, que está sempre ali, e que se manifesta à mínima oportunidade. E, porventura, tal como nós, também não terão nenhuma dessas viagens de sonho agendadas para as próximas semanas ou meses. Há, porém, algumas actividades que nos permitem “aguentar” essa espera. São, de alguma maneira, formas de expôr os nossos filhos a essas diferentes culturas e tradições. Isto ao mesmo tempo que garantimos serões bem divertidos. É uma espécie de viajar sem sair de casa – ou, pelo menos, sem sair da cidade ou do país. Deixo aqui três sugestões.

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